Durante muito tempo, a comunicação no audiovisual foi tratada como uma etapa posterior à produção. Primeiro se faz o filme. Depois vêm o cartaz, as redes sociais, a assessoria de imprensa e o esforço para encontrar público. Para produções independentes, porém, acredito que essa lógica já não faz sentido. Quando os recursos são escassos e cada parceria pode determinar o que será possível colocar na tela, comunicar não é apenas divulgar: é também produzir.

Foi essa lógica que aplicamos em A Última Fita. Antes mesmo do primeiro dia de filmagem, o curta já tinha identidade visual, posicionamento, estratégia para redes sociais e uma frente ativa de relações públicas. Não estávamos comunicando uma obra pronta. Estávamos construindo, diante do mercado e do público, a percepção de valor de um projeto que ainda estava sendo realizado.

Essa construção teve efeitos. As estratégias de comunicação ajudaram a converter aproximadamente R$ 20 mil em apoios e parcerias para a produção. Ainda na fase de desenvolvimento e pré-produção, o projeto alcançou cerca de 2 milhões de pessoas a partir de 12 inserções na imprensa especializada e regional. Empresas, fornecedores e profissionais passaram a conhecer o filme antes de ele existir fisicamente na tela.

É aqui que, para mim, branding deixa de ser apenas uma questão estética. Um filme independente também disputa atenção, confiança e recursos. Ter um bom roteiro é fundamental, mas quem está do outro lado de uma proposta de parceria precisa conseguir enxergar o potencial daquele projeto antes da estreia. Identidade, narrativa, posicionamento e reputação ajudam a tornar esse valor compreensível.

Em A Última Fita, essa percepção contribuiu para a aproximação de parceiros de diferentes áreas, desde empresas de equipamentos até profissionais especializados em elementos importantes para a construção do filme, como trilha sonora e efeitos práticos. O que estava sendo apresentado não era simplesmente um pedido de apoio, mas um projeto com linguagem própria, estratégia de circulação e capacidade de gerar visibilidade.

Isso também muda a forma como penso relações públicas dentro de uma produção audiovisual. PR não precisa começar quando existe uma data de lançamento. Uma matéria publicada durante o desenvolvimento pode dar legitimidade ao projeto diante de um potencial parceiro. Uma narrativa consistente pode facilitar uma negociação. Uma presença digital bem construída pode transformar espectadores em uma comunidade interessada em acompanhar a realização do filme.

Essa comunidade também tem valor econômico. Antes mesmo do lançamento oficial de uma campanha de financiamento coletivo, A Última Fita recebeu cerca de R$ 4,5 mil em contribuições espontâneas. O público já acompanhava os bastidores, conhecia os profissionais envolvidos e entendia o que estávamos tentando construir. A relação com o filme começou antes de ele estar pronto.

Essa experiência reforçou algo que vejo com cada vez mais clareza: para o cinema independente, audiência não deveria ser uma preocupação exclusiva da distribuição. Ela pode começar a ser construída ainda na produção.

E isso não significa transformar todo filme em produto publicitário ou subordinar decisões artísticas ao marketing. Significa reconhecer que uma obra também precisa criar relações para existir. Relações com público, imprensa, marcas, profissionais, instituições e possíveis parceiros. Comunicação estratégica organiza essas relações.

Há ainda uma diferença importante entre simplesmente estar nas redes sociais e construir reputação. Alcance isolado não necessariamente gera valor. A comunicação precisa ajudar as pessoas a compreenderem quem está realizando aquele projeto, por que ele merece atenção e o que existe de relevante naquela produção. É justamente essa percepção que pode transformar visibilidade em oportunidade.

No audiovisual independente, produção executiva sempre envolveu encontrar caminhos para tornar possível aquilo que o orçamento, sozinho, não permitiria realizar. Hoje, parte desses caminhos passa necessariamente pela comunicação.

Por isso, acredito que a pergunta não deveria ser apenas “como vamos divulgar esse filme quando ele estiver pronto?”. A pergunta pode surgir muito antes: “como a comunicação pode ajudar este filme a existir?”

No cinema independente, comunicar bem não garante que um filme será realizado. Mas ignorar o papel estratégico da comunicação significa abrir mão de uma ferramenta que pode fazer diferença entre uma boa ideia permanecer no papel ou conseguir chegar à tela.